Ayrton Senna e Didi Mocó se transformam no personagem de quadrinhos Didisena inédito de Os Trapalhões


Era uma vez um garoto que possuía velocidade no sangue, tanto que nasceu após apenas cinco meses de gestação. Ao crescer, o talentoso piloto-mirim se vê em apuros, ao bater de frente com um narigudo garoto, trapaceiro o suficiente para "sequestrar" o motor do rival para tentar vencer o oponente.

Tudo isto não se parece com a história real de dois pilotos de Fórmula 1? Pois não é apenas coincidência. A história em quadrinhos "O Fantástico Didisena", nunca antes publicada, traz todos os personagens do humorístico "Os Trapalhões", protagonizando uma paródia da rixa Senna-Prost.

E esta trama infanto-juvenil será lançada pela primeira vez em abril, no livro "HQs dos Trapalhões", da Editora Estronho, do radialista e pesquisador cultural Rafael Spaca. Roteirizada por Gerson Luiz Teixeira, a obra permaneceu 22 anos esquecida no arquivo do desenhista carioca Gustavo Machado, antes de ser gentilmente cedida ao projeto de Spaca.

Com seu lançamento agendado para meados de 1994, a HQ precisou ser abortada, em virtude do acidente que tirou a vida de Ayrton Senna. No livro "HQs dos Trapalhões", a história "O Fantástico Didisena" será publicada na íntegra, e exatamente como concebida, sem coloração, ao lado de vários outros raros trechos do gibi "Os Trapalhões".

"Ayrton Senna morreu, e a editora Abril ficou com esta dúvida: publica a história como uma homenagem ou arquiva o trabalho? Acabaram deixando na gaveta, até porque coincidiu com o fim da HQ, que resistiu à morte do Zacarias, mas não continuou quando Mussum se foi", explica Rafael Spaca.

Na era de ouro do quadrinho infantil, quando até Gugu e Faustão tinham sua versão em gibi, os Trapalhões eram os grandes astros da Editora Abril. Além do título principal, a Abril editava também uma HQ paralela chamada "As Aventuras dos Trapalhões", com sátiras de filmes e ícones da cultura pop. Didisena surgiu meses antes de "Senninha" ser lançado pela Abril Jovem, unindo duas das pessoas mais queridas do Brasil.

"Existe um intervalo entre a produção e a publicação, que, na época, era de três meses. Eu percebi que Didisena nunca era lançado. Com o fim da HQ, meu chefe me reenviou os originais de tudo que não pôde ser publicado, e havia muita coisa inédita. A história do Didisena era a única que estava inteira, com arte finalizada, prontinha para publicar", lembra Gustavo Machado, responsável pelo traço de personagens como Zé Carioca, Xuxa e Sergio Mallandro.

Além de lembrar as 266 edições publicadas nos 18 anos em que o grupo de Renato Aragão esteve nos quadrinhos, "HQs dos Trapalhões" resgata também o trabalho de quem estava por trás dos gibis. O livro traz 25 relatos e histórias escritas pelos próprios ilustradores e roteiristas envolvidos na produção das revistas, que foram publicadas pelas editoras Bloch e Abril. Esperto, Renato tinha o hábito de assinar com editoras concorrentes da Globo, casa do grupo na TV, para ter uma "carta na manga" em eventuais negociações de contrato.

Entre as histórias reveladas, o leitor poderá entender a mudança de perfil das HQs, quando os Trapalhões trocaram de editora. Até 1988, os personagens eram desenhados em sua versão adulta, com piadas anárquicas e escrachadas, em sintonia com o programa televisivo. Na Abril, a versão infantilizada foi proposta pelo designer César Sandoval, que queria padronizar a imagem de um grupo que já faturava alto, licenciando brinquedos e todo tipo de produto para crianças.

"Algo muito interessante que eu descobri foi que a HQ foi criada com a autorização dos Trapalhões, mas era algo totalmente separado do programa. Só que, na época da Bloch, era comum os roteiristas aproveitarem algumas piadas da revista para usarem na TV", conta Scapa, que já tem um prefácio escrito por Dedé Santana. Agora, espera pela contribuição de Renato Aragão.

"Já entrei em contato com a equipe dele, por meio de Paulo Aragão, irmão e assessor, que tem imposto mil impeditivos para Renato colaborar, inclusive dizendo que o trabalho estaria 'incompleto'. É que não tivemos como pagar pelo uso das capas junto às editoras. Eles pediam preços muito altos, e somos uma editora pequena. Por causa disso, optamos por usar no livro só material original dos cartunistas", reclama Rafael Spaca.

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