Ofensas a Dietmar Hopp e protestos contra a DFB põem em evidência contraste entre tradição e modernidade na gestão do futebol na Alemanha

Hoffenheim vs. Bayern Munich has been interrupted after some away team supporters insistently displayed "Hopp bleibt ein du hurensohn!" plus other banners insulting Hoffenheim benefactor Dietmar Hopp
Quem sintonizou o televisor no sábado, 29 de fevereiro de 2020, para assistir ao jogo entre Hoffenheim e Bayern de Munique, válida pela Primeira Divisão do Campeonato Alemão, acompanhou um desenrolar de partida atípico.

Logo nos primeiros quinze minutos de partida, o placar já apresentava a contagem de três tentos a zero a favor do time da Bavária. O domínio do time de vermelho prevaleceu do decorrer da partida. Na segunda etapa, o Bayern dobrou o número de gols marcados.

Por volta da segunda metade, o placar estava seis a zero para o time visitante. Então, os poucos torcedores do Bayern Munich exibiram faixas com protestos à Deutscher Fußball-Bund e ofensas direcionadas a Dietmar Hopp, presidente do Hoffenheim.

Os jogadores do time visitante pediram que as bandeiras e faixas correspondentes aos protestos e ofensas fossem retiradas. A partida prosseguiu até o septuagésimo-nono minuto, quando os mesmos torcedores voltaram a protestar da mesma maneira.

O árbitro imediatamente interrompeu a partida, chamou as equipes para deixarem o campo e todos retornaram aos vestiários. Após vários minutos de interrupção, os jogadores, em conjunto com a arbitragem, decidiram retornar ao gramado, e continuaram o jogo, mas, ao invés de disputarem a bola com determinação e veemência, tiveram apenas alguns momentos de descontração, tocando a bola um para o outro, realizando alongamentos pós-partida, praticando movimentos típicos de treinamento diário.

Quem, assim como eu, estava assistindo à partida, e ficou sem entender nada do que estava acontecendo, e não acompanha com assiduidade o Campeonato Alemão de Futebol, precisa ir mais a fundo para compreender a história em torno dos protestos. Eu fiz exatamente isto. Então, senta que lá vem a história.


Há uma lei na Alemanha que proíbe que pessoas possam ser acionistas majoritárias de clubes de futebol, ou seja, devem ser administradas por presidentes eleitos, e não podem ter donos. É a famosa lei "50% mais 1", onde o capital privado pode possuir até 49,99% dos ativos de um clube, para que, no momento de decisões cruciais para a gestão do mesmo, prevaleça o voto dos sócios.

Dietmar Hopp, cofundador da SAP (Systems, Applications and Products in Data Processing), empresa que desenvolve softwares e soluções ERP (Enterprise Resource Planning), ou Gestão de Recursos de Empresas, é uma das pessoas mais ricas da Alemanha, com fortuna estimada em 13 bilhões de euros.

Hopp, desde sua juventude, é torcedor do Hoffenheim, inclusive chegou a jogar nas categorias de base do clube. Na década de 1990, resolveu apoiar financeiramente o clube de coração. Suas contribuições geraram resultados imediatos. Em 2000, o Hoffenheim conquistou o primeiro lugar na Quinta Divisão alemã (Verbandsliga Nordbaden) e foi promovido para a Quarta Divisão (Oberliga Baden-Württemberg).

Com outro título, o Hoffenheim foi promovido para a temporada 2001-02 da Terceira Divisão (Regionalliga Süd). Cinco anos, um grande reforço de elenco e comissão técnica depois, o clube conseguiu o vice-campeonato e subiu à Segunda Divisão alemã (2. Bundesliga).

Bastou apenas um ano para o Hoffenheim conquistar um novo vice-campeonato e subir à Primeira Divisão alemã, a famosa Bundesliga, donde nunca mais saiu. Após onze temporadas na elite do futebol alemão, seu melhor resultado é um terceiro lugar na temporada 2017-18.
Dietmar Hopp Hoffenheim Owner
Ele contornou a medida proibitiva criada pela DFB (Deutscher Fußball-Bund), através da SAP, com manobras jurídicas e comerciais, e assumiu publicamente a gestão do clube. Assim, Dietmar Hopp se tornou proprietário de 96% dos ativos do Turn- und Sportgemeinschaft 1899 Hoffenheim, e a SAP passou a ser a administradora do clube.

Isto despertou a controvérsia de alguns torcedores, dirigentes e jornalistas, devido ao fato de que o Hoffenheim não possui uma base sólida de sócios, visto que a cidade possui pouco mais de 3.300 habitantes, e que subiu à Primeira Divisão alemã graças ao enorme apoio financeiro da SAP.

A situação do Hoffenheim é semelhante à do extinto time escocês Gretna e dos clubes alemães Wolfsburg, de propriedade da Volkswagen, Leverkusen, da empresa farmacêutica Bayer, e Leipzig, sob a tutela da Red Bull.

No entanto, devido à longa história destes três últimos, clubes de futebol fundados por operários, que obtiveram sucesso na chegada à Primeira Divisão alemã por seus próprios méritos, e não através de financiamento externo, são tratados de forma diferente da qual lidam com o Hoffenheim.
"Hasta la vista, Hopp!" In the Bundesliga match between TSG 1899 Hoffenheim and Borussia Dortmund on May 14 2019, a large banner was unfurled in the away end
Desde 2008, alguns torcedores de vários clubes, em jogos contra o Hoffenheim, expuseram bandeiras e cartazes com protestos e xingamentos contra Hopp. Algumas ilustrações mostravam a face de Dietmar e o logotipo da DFB sob círculos de tiro ao alvo. Outra faixa continha a frase "Hopp du hurensohn", que, em alemão, significa "Hopp, seu filho da puta".

Enquanto o sucesso do Hoffenheim é apreciado pelos 28.000 fãs que lotam a Arena PreZero, na rodovia A6, torcedores de outros clubes acham que um clube como o Hoffenheim, que ascende graças ao apoio financeiro, tem sua história manchada e acaba com a tradição no futebol.

Torcedores do 1. FC Köln, de Colônia, em abril de 2017, através de uma bandeira, descreveram a mãe de Dietmar Hopp como uma prostituta e rotularam seu pai de nazista.

Por mais desagradáveis que sejam os insultos, Hopp costuma ter a tendência de ignorá-los. Ele goza de muito respeito em Rhein-Neckar, sua terra natal, no sudoeste da Alemanha, resultado de seu extenso trabalho de caridade e filantropia.

Seu pai, Emil Hopp, era um membro do Partido Nazista na década de 1930, fato que o próprio Dietmar nunca negou. Pelo contrário, sempre apoiou a pesquisa sobre o passado Nacional Socialista da Alemanha.
"Keep football as the people
Cinco torcedores do Borussia Dortmund, em partida contra o Hoffenheim, foram identificados, graças ao uso de câmeras de vídeo de alta definição. Dietmar Hopp decidiu processá-los pessoalmente, sem envolvimento do clube.

Dois deles, que não tinham antecedentes criminais, logo assumiram a culpa e entraram em acordo, pagando multas de 400 e 600 euros. Os outros três, representados por um trio de advogados especializados em futebol e na cultura do esporte, argumentaram que suas críticas ao modelo de Hoffenheim são legítimas, e que os insultos não visavam difamar Hopp pessoalmente, destacando também a linguagem mais severa e mais agressiva que prevalece entre os fãs do futebol.

Sempre em ocasiões deste tipo, ele apresentou queixa formal contra os fãs, mas ele geralmente as retirava após o recebimento de um pedido de desculpas oficial. Só que, desta vez, quando ele estava acompanhado no estádio por um ministro do gabinete alemão e membros da família, incluindo seus netos, Hopp quis justiça.

O promotor Christoph Schickhardt admitiu que as críticas ao Hoffenheim poderiam ser justificadas, mas disse ao jornal Ruhr Nachrichten, de Dortmund, que "não há justificativa para atos criminosos".

No entanto, os advogados de defesa e as organizações de fãs do Borussia Dortmund emitiram críticas contundentes ao julgamento, no qual cerca de 20 objeções foram rejeitadas ou não permitidas.

Eles estavam preocupados com o uso de potentes equipamentos de áudio e vídeo para reunir evidências, ou seja, o uso da tecnologia para gravar conversas particulares e, portanto, violar o direito à privacidade.

Além disso, quando os advogados de defesa solicitaram que o próprio Dietmar Hopp se posicionasse para participar das audiências, nem as autoridades locais nem os advogados de Hopp puderam fornecer um endereço válido para emitirem uma convocação.

"Foi um procedimento sem precedentes em termos de desconsideração de direitos básicos da jurisprudência alemã", disse o advogado Stefan Witte ao Ruhr Nachrichten.

"Em nenhum momento foi garantido um julgamento justo. Os argumentos da defesa não mostraram mais respeito do que as objeções", acrescentou a Fanhilfe Dortmund, uma organização que fornece assistência jurídica aos torcedores do Borussia Dortmund.

"Eles estão nos levando para dar um passeio", disse um dos acusados ao Ruhr Nachrichten, quando ele e seus colegas, que também eram réus no processo, foram condenados a multas equivalentes a 70 dias de salário e banimento dos estádios de futebol por duas temporadas.

Witte e os advogados de defesa já disseram que irão recorrer da decisão.

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