Fiat Tempra 1993 Safety Car no qual Ayrton Senna andou sentado na janela será restaurado e exibido ao redor do Brasil

F1 1993 Brasil GP Fiat Tempra Safety Car
O Grande Prêmio do Brasil de 1993 foi a última corrida local que Ayrton Senna venceu. A imagem do tricampeão pegando carona no Fiat Tempra 1993 Safety Car sentado na janela e acenando para o público ficou emblemática na história da Fórmula 1.

Dado como perdido há vários anos, o carro foi encontrado por um empresário baiano, no interior de São Paulo, mais precisamente, no município de São Roque.

Ivan Gusmão levou o carro de volta à sua terra natal, Itabuna, e vai restaurar o carro para sua condição original, colocará os decalques que tinha e deixará o carro exatamente do jeito que estava quando foi o Safety Car do GP do Brasil de 1993, e sairá em excursão pelo Brasil para exibir o carro.

No Grande Prêmio do Brasil de 1993, realizado em Interlagos, São Paulo, Ayrton Senna largava em terceiro lugar, e tinha à sua frente as Williams de Alain Prost e Damon Hill, que cravaram quase dois segundos de diferença na qualificação para o grid da corrida.

No entanto, durante a prova, uma chuva torrencial desabou sobre o autódromo, a ponto de Alain Prost parar na brita na primeira perna do S do Senna, e o piloto brasileiro, com a pista molhada, e mesmo após cumprir punição por manobra arriscada, teve melhores condições de alcançar e ultrapassar Damon Hill na reta que antecede a curva Ferradura.

Depois de ser o primeiro a completar a última volta da corrida, Ayrton Senna tentou realizar a tradicional volta da vitória, só que uma multidão invadiu a pista na reta oposta. Por conta disso, o piloto teve que reduzir a velocidade, e o McLaren apagou.
F1 1993 Brasil GP Fiat Tempra Safety Car Ayrton Senna
Cercado pelos torcedores, Senna foi resgatado pelo Safety Car, o Fiat Tempra em questão, na cor vinho. O incidente, que jamais tinha acontecido na história da Fórmula 1, logo se tornou uma cena eternizada na história do automobilismo.

O piloto desfilou pelas curvas de Interlagos sentado na janela do veículo, e percorreu todo o autódromo. Foi a segunda e última vitória do tricampeão no Brasil. Senna se foi pouco mais de um ano depois dessa corrida. Só que o Tempra ainda vive, e foi resgatado antes de desaparecer pela ação do tempo.

"Senna nos braços do povo. Uma imagem inédita na Fórmula 1. Ele larga o seu carro na pista, sinaliza para a sua torcida, vive mais um momento de glória, faz a alegria de sua torcida. E vem no carro de resgate. É uma loucura generalizada em Interlagos. Ainda maior do que a vitória de Senna em 1991 quando, pela primeira vez, ele venceu o Grande Prêmio do Brasil. Ayrton Senna volta no Safety Car. Volta acenando para a sua torcida. Ele não se contém e vai para fora do carro. Senna é isso, é todo emoção, todo coração. Esta é a grande paixão da sua vida", narrou assim Galvão Bueno a volta da vitória de Ayrton Senna naquele GP.
Ivan Gusmão Ayrton Senna
Fã de Ayrton Senna, o empresário Ivan Gusmão, baiano de Itabuna, coleciona macacões e capacetes, batizou as suas duas empresas com o nome "Senna", pintou sua casa com as cores do capacete do piloto. Em 2015, começou a procurar o Safety Car do GP do Brasil de 1993. Uma busca que levou horas de pesquisa e dias de viagens pelo Brasil.

"Como todo fã de Senna, vi as imagens e me perguntei que fim levou aquele carro. A curiosidade foi aumentando, e eu sei que ninguém tomou a medida de buscar esse carro, saber notícia. Há três anos comecei essa busca. Procurei a Fiat para me dar um norte onde começar. Só que o pessoal naquela época não me deu muita importância. Hoje sei que o carro saiu do Grande Prêmio e foi exposto em algumas concessionarias na grande São Paulo. Busquei também nessas concessórias essas informações. O interessante é que esse carro foi comprado por um descendente de italiano como seminovo, ficou cinco anos com ele até 1998. Ele não acompanhava a Fórmula 1 e não deu importância, mesmo sabendo que tinha sido utilizado como safety car e vendeu esse carro. Quando aconteceu o marco dos dez anos do falecimento de Senna que os amigos botaram na cabeça dele para ir atrás desse carro. E ele se mobilizou. Mas não encontrou mais. Acontece que esse carro se perdeu. O segundo dono não sabia, terceiro, quarto...", explica Ivan.

Assim que se deparava com um veículo com os mesmos dados, Ivan, que não revelava ao proprietário o real motivo da intenção da compra, viajava para confirmar a veracidade das informações.

"Tinha que contar história que queria comprar o carro porque era uma homenagem ao meu pai, que tinha o Tempra, e coisa e tal, inventava uma desculpa, porque eu não gostava do carro, só o queria pois era o Safety Car que carregou Ayrton Senna", disse Gusmão.
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Fez cinco viagens até que, depois de três anos, encontrou o que tanto procurava. Na cidade de São Roque, interior de São Paulo, Ivan localizou o carro. Batizado de "Fumaça" (já imagino o porquê...), o veículo estava encostado embaixo de uma árvore. E irreconhecível, tamanha a quantidade de reparos na carroceria a se fazer. Tinha os vidros quebrados, os pneus estavam estourados, o carro não andava, e o proprietário com dificuldade financeira.

"Fiz o pagamento pelo preço que ele queria, nem chorei valor. Levei para São Paulo, tive que fazer uma manutenção preventiva para ele passar na vistoria veicular e o transferi para o meu nome. Depois disso tudo, coloquei-o num pátio de cegonhas, para levá-lo para Itabuna", recorda Ivan.

Ivan adquiriu o Tempra por R$ 2.500. No entanto, entre viagens e transporte para Itabuna, o gasto foi de, aproximadamente, R$ 13.000. Somado a isso, teve que pagar outros R$ 20.000 para a restauração do veículo, que está sendo realizada na cidade baiana. O Tempra vai receber os adesivos, giroflex e sinalizadores da época. Depois do processo, que deve durar quarenta dias, o carro vai ser colocado em exposição.

Como Ivan teve a certeza que este carro era, de fato, o safety car usado por Ayrton Senna na volta da vitória no GP do Brasil de 1993? Primeiro, Ivan teve que reunir todas as informações sobre o veículo. Segundo, procurou saber a placa e o número do chassi com a Fiat.

"O Tempra tem a placa FBM-1001, “F” de Fiat, “B” de Brasil, “M” de McLaren, “100” pois, naquele Grande Prêmio, a McLaren obteve a 100ª vitória, e “1” porque Senna era o número um entre todos os pilotos. Eu pesquisava na internet as características do carro. Recebi várias fotos. Somente quando eu tinha certeza que os veículos que se enquadravam nessas características é que eu ia viajar para encontrá-los. Ele poderia não existir ou mesmo estar à venda", explicou Gusmão.

Foi importante também a ajuda de outra pessoa: o piloto deste safety car. Roberto Aranha confirmou as informações do carro com Ivan Gusmão. "Ivan me achou, vi as imagens e a placa do carro, falei que dirigi esse carro, desde então ficamos amigos. Parabenizei ele pelo resgate. Esse Tempra é um pré-série. Não tenho dúvidas, o carro é este mesmo", garante Aranha. No entanto, a Fiat ainda não confirmou que o carro é o mesmo utilizado no Grande Prêmio.

O piloto ainda tem fresca na memória o Grande Prêmio do Brasil de 1993. Ele lembra que precisou entrar em ação em duas ocasiões distintas. Primeiro, por conta de uma série de acidentes que aconteceram no GP em razão da forte chuva durante a prova. Depois, após a prova, para resgatar Ayrton Senna. Quando o encontrou, ainda tentou conter a euforia do brasileiro, que sentou na janela do carro, mas foi em vão.
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"A primeira vez que foi utilizado um safety car durante a corrida foi exatamente no Grande Prêmio do Brasil de 1993. Antes, não tinha safety car. Os carros largavam, se acontecesse um acidente, a bandeira vermelha era acionada, a prova era interrompida. Nesta corrida, vários carros bateram. Houveram sete acidentes. O safety car foi acionado. Depois, a normalidade voltou, apenas após Ayrton Senna vencer é que teve outro problema, mas de invasão da torcida. O carro dele morreu, e fomos acionados de novo para ir resgatá-lo, porque ele tinha que estar no pódio. A situação se tornou bastante perigosa, porque tinha bastante gente na pista, e ele estava na janela. Eu batia na perna dele, mandava ele entrar no carro. Ele dizia que tudo bem. Mesmo assim chegamos a tempo. Foi uma experiência inédita. Jamais um safety car havia sido acionado para resgatar um piloto, e jamais um piloto sentou na janela", recorda Aranha.

Ivan garante que a restauração não tem fins lucrativos. O empresário não pretende vender o veículo, apesar de conhecer casos de outros carros nessa situação, que acabaram sendo restaurados e vendidos por altos valores.

"Quando divulguei a informação de que encontrei o Tempra, falaram-me que, na Argentina, foi vendido um Renault Clio Safety Car do Grande Prêmio da Argentina de 1996 por R$ 156.000. O Tempra não vai valer menos de R$ 200.000. Só que o comércio não é minha intenção. Não está à venda, por mais valorizado que ele esteja. Tenho duas empresas e dei o nome do Senna a elas. Não me caracterizo como oportunista, como devo escutar em um lado ou outro. Não será doação. Quero usufruir dessa história do Senna de forma indireta pelo prazer de resgatar. Ele só vai ser exposto pelo Brasil. Quero dividir essa alegria com todos os Sennistas que tinham essa curiosidade", garante Ivan.
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O ganho, segundo Ivan, é mais pessoal. Gusmão se vê realizado com a conquista. Agora, ele quer compartilhar isto com as outras pessoas. Roberto Aranha reconhece e valoriza isso. Para ele, a recuperação do Tempra é um resgate importante da história para as próximas gerações.

"É uma lembrança muito boa, uma coisa bacana. O último Grande Prêmio do Ayrton Senna no Brasil, o último que ele ganhou. É uma parte da história que é resgatada. A garotada hoje em dia não conhece o Ayrton, então é uma parte da história que é mantida. História é feita disso, de entusiastas", disse Aranha.

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