Sobre ter a agência ao lado do motel

Se um dia você tiver de escolher um local para colocar sua agência, não escolha ao lado de um motel. Pode ser perto de hospital, delegacia, corpo de bombeiros, manicure, armarinho, tabacaria, banca de jogo do bicho, menos motel. Sabe por quê? Não importa a hora do dia ou da noite, sempre haverá gente entrando e saindo do motel. O problema é que, ao assistir a essa cena repetidas vezes, é inevitável pensar em quatro coisas:

1: tem gente se divertindo
2: não é você
3: e por que não é você?
4: por que você tem de trabalhar?

Difícil não ficar incomodado com essa sequên­cia de pensamento dia após dia. Tente imaginar: você a caminho de um cliente para apresentar um planejamento anual, e um casal entrando no motel. Indo participar de uma concorrência, e um trio entrando no motel. Indo acompanhar grupos de pesquisa, e um grupo entrando no motel. Você chega às 7h30 da manhã para adiantar um trabalho, e não é que alguém acordou mais cedo ainda para… Enfim, ir ao motel?

Por mais que se tente não pensar no assunto, não adianta: ele atravessa o seu caminho. O carro que o fechou lá atrás, para onde está indo? Para lá. Um Corsa apressadinho passa por você. Onde entrou? Você já sabe.

Para piorar, tem um semáforo praticamente na porta do referido estabelecimento. Sinta o drama: você atrasado, ansioso esperando o sinal abrir, e assiste a um casal com aquela expressão de contentamento só vista em comerciais de automóvel.

Essa sensação de que as pessoas têm vida sexual ativa às 3h da tarde de uma terça-feira é desconcertante. Desassossega a alma.

Você deve estar pensando: “Mas que conversa é essa? Este é um jornal sério.” Pois bem, amigos, este assunto também é muito sério. Refere-se à produtividade e motivação da equipe. Não coloque sua agência ao lado de um motel.

Mas esta coluna não é sobre criação? Justamente. Aborda como os criativos são dispersivos. Imagine você que eu preparava para esta coluna um artigo sobre “A arte de escrever fácil”. Nele, condenava o uso de palavras difíceis, textos truncados e expressões em inglês que infestam a comunicação em geral. Vícios que, durante muito tempo, foram tidos como sinal de competência e autoridade. Mas que hoje, felizmente, passam a ser vistos como o que real­mente são: falta de habilidade para escrever.

É com alegria que vejo figuras respeitadas como Laurentino Gomes e Marcelo Gleiser alcançarem enorme sucesso escrevendo obras ao mesmo tempo densas e acessíveis. Enfim, eu voltava para a agência para dar um tapinha final neste texto, quando me perdi em frente àquele maldito motel.

Carlos Domingos, sócio e diretor da Age Isobar, escreve para Meio & Mensagem na página de Opinião. Este texto foi publicado na edição 1501, de 19 de março.

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