F1 2010 Season Review


A temporada de 2010 da Fórmula 1 foi uma das melhores da história da categoria máxima do automobilismo. E não é para menos: o Yas Marina Circuit, circuito de Abu Dhabi, foi o primeiro na história a sediar uma batalha entre quatro pilotos pelo título de pilotos da Fórmula 1, superando as expectativas de um traçado que é bastante criticado por não oferecer muitas possibilidades de ultrapassagens. Em vez da potencial monotonia, entrou em seu lugar a tensão.

Ao longo das 19 etapas, nenhum piloto conseguiu estabelecer uma dominância no topo da tabela de classificação. Fernando Alonso, Mark Webber e Lewis Hamilton disputavam ferrenhamente a liderança do campeonato, ao passo que Sebastian Vettel só acompanhava os passos do trio. Era impossível definir durante a temporada qual piloto seria o potencial campeão, e isto foi reforçado pelo fato de que o real vencedor nunca havia liderado a tabela de pontos em 2010.

Incrivelmente, a única ocorrência no aspecto político que gerou maior impacto nos bastidores foi a ordem da Scuderia Ferrari para Felipe Massa deixar Fernando Alonso ultrapassá-lo e vencer o Grande Prêmio da Alemanha, além da forma como a Red Bull Racing tratou seus pilotos ao longo da temporada, gerando especulações sobre um possível favorecimento a Sebastian Vettel, e a disputa entre a Lotus Racing e a Renault pelos direitos de uso da marca "Lotus" em 2011.

As atenções na Fórmula 1 em 2010 se voltaram para o que realmente importava, as corridas. A temporada mais disputada em décadas transcorreu em sua essência: uma competição esportiva entre equipes e pilotos que nunca perdeu o foco para qualquer outro assunto extra-pista.

A Red Bull Racing dominou do início, pelo menos na performance de seus bólidos. Adrian Newey e Rob Marshall fizeram um trabalho fabuloso no RB6, principalmente na aerodinâmica, como também na suspensão, do tipo pull-rod, que funcionou bem melhor que no McLaren MP4-25 e no Force India VJM03, que usaram um sistema semelhante. Por um longo tempo, os rivais tentaram achar algum vestígio de um sistema de regulagem de altura que permitia alterar a configuração entre o parc fermé e a corrida, ou que a asa dianteira fosse flexível a ponto de gerar maior downforce. As regras foram ficando mais rígidas ao longo de 2010, mas nada disso alterou a performance do RB6.

O grande problema dos carros da Red Bull Racing era a sua confiabilidade, que deixou seus pilotos pelo caminho várias vezes, a começar pelo Bahrain, quando um cabo de vela com problemas deixou Sebastian Vettel sem condições de lutar pela vitória. Depois, na Austrália, problemas nos freios fizeram o alemão abandonar a prova, resultado da atitude de Adrian Newey de fazer os discos de freio mais leves, deixando eles menos resistentes.

A vitória naquela prova foi de Jenson Button, recém-chegado à McLaren, que optou por uma estratégia de pit stops agressiva, pois a instabilidade climática imperava no Melbourne Grand Prix Circuit. Vettel finalmente pôde fazer jus ao carro que tinha, conquistando a vitória na Malásia, com Mark Webber completando a dobradinha. Na China, foi a vez da McLaren conquistar os lugares mais altos do pódio, com Jenson Button vencendo novamente, e Lewis Hamilton chegando em segundo. Isso mostrou que o campeão de 2008 poderia ter trabalho para superar o de 2009, mas a sorte de Jenson começou a acabar assim que a fase europeia teve início.

Quem começou a mostrar as caras a partir dessa ocasião foi Mark Webber. Bastante motivado, venceu na Espanha e em Mônaco, mostrando a velocidade que teve em 2009, na Alemanha e no Brasil, para abalar as estruturas da Red Bull Racing, cujo marketing era direcionado para Sebastian Vettel, tido como o "preferido da equipe". O estopim da confusão foi aceso na Turquia, quando um acidente entre Vettel e Webber acabou com as chances de dobradinha da Red Bull Racing naquele GP, entregando o pódio para a McLaren, e gerando uma disputa pela primeira posição entre os pilotos britânicos da equipe prateada tão intensa quanto à da equipe rubro-taurina.

Lewis Hamilton acabou vencendo na Turquia e também no Canadá, onde as gritantes diferenças de desgaste entre os compostos médio e supermacio geraram uma corrida empolgante. Em Valência, Vettel venceu o Grande Prêmio da Europa, onde Mark Webber "ganhou asas e voou", graças a uma colisão na traseira de Heikki Kovalainen, na pressa de efetuar uma ultrapassagem sobre a Lotus do finlandês, a fim de recuperar o tempo que havia perdido durante a primeira parte da prova.

Na Inglaterra, entretanto, o australiano triunfou, depois de um treino de classificação conturbado, quando teve sua asa dianteira atualizada sendo substituída por outra antiga, para favorecer Sebastian Vettel, que havia quebrado a sua durante o sábado, e não havia outras para reposição.

As coisas estavam difíceis para a Ferrari em 2010, apesar da vitória na primeira prova. Um erro cometido por Fernando Alonso no treino da manhã de sábado no Grande Prêmio de Mônaco pode ter sido o que lhe custou as chances de conquistar o título, já que ultrapassar, nas ruas de Monte Carlo, não é uma tarefa das mais fáceis. As F10 estavam totalmente fora do páreo na Turquia. Na Inglaterra, Alonso recebeu um drive-through após ultrapassar Robert Kubica na área de escape, um erro duro de aceitar, quando cometido por um bicampeão.

As coisas mudaram na Alemanha. Felipe Massa liderou Fernando Alonso, rumo a uma dobradinha. No entanto, uma ordem de equipe obrigou o brasileiro a deixar o espanhol vencer a prova, justamente um ano após o acidente que o retirou das pistas em 2009, na Hungria, quando uma mola que caiu do carro de Rubens Barrichello atingiu a cabeça de Felipe Massa. Novamente, para muitos, o uso de ordens de equipe por parte da equipe italiana deixou um gosto amargo na boca.

Mark Webber venceu mais um GP na Hungria, quando um novo erro de Sebastian Vettel, ficando muito lento atrás do safety car, impedindo Fernando Alonso de prosseguir com maior liberdade pela pista, o que gerou um driving-through para o alemão. na Bélgica, Sebastian errou novamente, quando errou a freada na Bus Stop, atingindo Jenson Button e retirando o inglês da prova. Hamilton venceu lá, com Webber em segundo, recuperando-se de uma largada ruim, em razão de problemas com a embreagem, e Robert Kubica, em terceiro, completando o pódio.

Alonso venceu na Itália, depois de Jenson Button liderar a primeira metade da prova e perder a liderança em um pit stop mal realizado. Hamilton abandonou na primeira volta, após tocar no carro de Felipe Massa, e suas chances de título reduziram-se ainda mais no GP de Cingapura, depois de se envolver em um toque com Mark Webber, após uma tentativa de ultrapassagem, abandonando a prova noturna. Fernando Alonso conseguiu segurar Sebastian Vettel e venceu o GP, tornando-se o principal rival de Mark Webber na luta pelo título.

No Japão, Vettel venceu, assim como o fez em 2009, e Mark Webber chegou em segundo. Na Coreia do Sul, Sebastian estava no caminho certo para aumentar ainda mais suas chances de título, mas o estouro de seu propulsor o deixou pelo caminho, entregando a vitória para Fernando Alonso, o que permitiu que o espanhol assumisse a liderança na classificação entre os pilotos, já que Mark Webber perdeu o controle de seu RB6 na chuva e envolveu-se em colisão com Nico Rosberg, fazendo os dois abandonarem a prova.

Uma dobradinha da Red Bull Racing no Brasil garantiu o título de construtores para a equipe rubro-taurina e adiou a decisão do campeonato de pilotos para Abu Dhabi, última etapa da temporada. A recusa da equipe em ordenar Vettel deixar Webber ultrapassá-lo, medida semelhante à tomada pela Ferrari na Alemanha, reacendeu a polêmica sobre as prioridades para ambos os pilotos.

No Yas Marina Circuit, era a primeira vez que quatro pilotos tinham a chance de conquistar o título na última prova do campeonato. Sebastian Vettel fez a pole position e venceu a prova, tornando-se o mais jovem campeão da história da Fórmula 1, com 23 anos, 4 meses e 11 dias.

A Renault teve um progresso brilhante ao longo da temporada, depois de um péssimo início, com Robert Kubica liderando as melhoras no R30, principalmente com suas belíssimas performances em Mônaco, Austrália e Abu Dhabi, mostrando que, com um carro competitivo, é um piloto bastante competente.

A Williams, apesar das palavras de Patrick Head, dizendo que não foi um ano realmente bom para a equipe, melhorou o suficiente para conquistar a sexta posição no campeonato de construtores, superando a Force India, que sofreu muito com a perda de James Key e Mark Smith, e, apesar dos esforços de Adrian Sutil e Vitantonio Liuzzi, ficaram apenas em sétimo na classificação por equipes.

Foi um ano de "vacas magras" para BMW Sauber e Scuderia Toro Rosso, apesar da reputação de Kamui Kobayashi como um dos que melhor sabem ultrapassar na atualidade. A Lotus Racing, no final das contas, saiu no lucro, uma vez que a Virgin Racing teve problemas com os tanques de combustível, que não eram grandes o suficiente para que seus carros, totalmente construídos usando a tecnologia CFD (computational fluid dynamics), terminassem um GP, deixando de conquistar posições preciosíssimas para superar os carros verde e amarelo.

Apesar das descrenças de muitos, Lotus e Virgin continuarão em 2011, e focarão seus esforços em superar Toro Rosso e Force India. Muitos ficaram surpresos também com a Hispania Racing Team, que conseguiu alinhar dois carros no grid. Entretanto, Colin Kolles teve um enorme trabalho para isso, já que o F110, desenvolvido pela Dallara, era bastante inferior aos carros das demais equipes, em razão das dificuldades financeiras.

A Bridgestone deixa a Fórmula 1, onde estava desde 1997. A proibição dos reabastecimentos fez a diferença ao espetáculo.

Michael Schumacher volta à Fórmula 1, com a Mercedes GP, com seu W01, uma tentativa de evolução do vitorioso Brawn GP BGP 001, no qual o heptacampeão não conseguiu se adaptar com perfeição, perdendo para o companheiro de equipe, Nico Rosberg. O carro saía de frente, o que favoreceu Nico, mas deixou Michael com problemas. Uma consequência disso ocorreu no GP da Hungria, quando fechou o caminho de Rubens Barrichello, quase provocando um acidente, espremendo-o no muro dos boxes, mas não conseguiu evitar a ultrapassagem do brasileiro.

Havia sinais da "velhice" de Michael Schumacher em termos de performance, mas é cedo dizer se ele não mais brigará por vitórias, já que a Mercedes GP promete um carro do jeito que ele gosta em 2011.

A Red Bull "deu asas" a Sebastian Vettel! Apesar do melhor ano de Mark Webber na Fórmula 1, da persistência de Lewis Hamilton, da lisura de Jenson Button, da determinação de Fernando Alonso, e da recusa de McLaren ou Ferrari de desistir do campeonato, é impossível discordar das palavras de Sir Jackie Stewart:

"O piloto correto venceu. Fez a pole, a estratégia correta, o melhor pit stop, e venceu com dez segundos de vantagem para o segundo colocado. Não se podia fazer muito mais do que isso. Mark Webber e Fernando Alonso tiveram suas oportunidades, mas Vettel dominou a prova de forma incontestável. Sem dúvida, o melhor piloto venceu."

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