A Globo e a Virgin: "It's only business!"

Depois de ler os textos publicados Por que a Globo anda chamando a Virgin de Manor? e Todos os Nomes (2), veio-me uma reflexão que me inspirou a redigir este texto, que diz respeito de como a Globo trata a questão de falar os nomes ou "apelidar" as equipes que participam da categoria máxima do automobilismo.

A resposta a esta pergunta disfarçada de frase está em uma nota publicada meses atrás, quando a Unisul de Joinvile suspendeu o seu programa dedicado ao volei, mencionando a Globo como uma das culpadas. A Unisul chegou a sugerir que, no ato do acordo entre a Federação de Volei e a Globo, houvesse uma cláusula que obrigasse a menção do nome real das equipes durante as transmissões.

A resposta da emissora ao comunicado da Unisul, acaba explicando, formalmente, a sua decisão, que já é algo até tradicional:

Os critérios que orientam as decisões das equipes de Jornalismo e de Esportes da Globo, de citar e exibir marcas, atendem a uma finalidade: ajudar o público a reconhecer a existência de fronteiras entre editorial e comercial, além, é óbvio, de resguardar, legitimamente, o modelo de viabilização da TV aberta, cujo sustento deve advir exclusivamente da comercialização dos intervalos e de outros formatos comerciais.

Do ponto de vista editorial, a citação indiscriminada de marcas comerciais por parte de narradores, comentaristas e repórteres poderia induzir o público a erro de julgamento quanto a independência, isenção e integridade que estes profissionais obrigatoriamente devem manter com relação a equipes e eventos esportivos. Por isso, mesmo considerando que o mercado esportivo evoluiu muito nas últimas duas décadas, a TV Globo nunca abriu mão deste princípio editorial, sem, entretanto, deixar de cumprir o dever de informar.

A Globo considera que a visibilidade natural proporcionada aos patrocinadores de equipes e eventos, em transmissões e reportagens, por si só agrega valor às marcas e gera ganhos de imagem para as empresas investidoras no esporte, dado o imenso alcance de público da televisão aberta.

Além do propósito de apoiar o esporte, o expediente de utilizar marcas comerciais para dar nome às equipes e patrocinar ostensivamente projetos esportivos visa, evidentemente, à obtenção da chamada "mídia espontânea" – as empresas querem a citação gratuita das suas marcas, evitando adquirir espaço comercial para expor seus produtos ou serviços.

Agora, por que o canal resolveu extrapolar justamente na Virgin? A resposta pode estar em uma nota da Veja:

"Dono de negócios tão variados quanto uma empresa aérea, uma gravadora de discos, e uma equipe de Formula 1, o inglês Richard Branson, do grupo Virgin, quer comprar uma rede de academias de ginástica no Brasil. Ela seria incorporada pela Virgin Active, cujas 170 unidades em seis países já têm 900.000 clientes. Na semana passada, Branson enviou um emissário para sondar empresas brasileiras do setor. Os alvos selecionados por Mark Field, diretor de novos negócios da Virgin Active, são a A! Body Tech, Companhia Athletica, Bio Ritmo e Monday. Branson gostaria de concretizar a operação ainda no primeiro semestre."

O ponto chave da questão está no fato de o patrocinador/comprador de uma equipe de F1, vôlei, basquete e afins, cujos jogos/corridas/partidas estão sendo transmitidas/veiculadas pela Globo, não estar em uma área de atuação diretamente ligada ao esporte em questão.

Exemplos:

- A própria Virgin, que comprou o espólio da F1 da Manor Motorsport, que trabalha em várias áreas de atuação, menos, e somente agora, no automobilismo, mas nunca trabalhou SOMENTE com automobilismo.

- A Salonpas, que fabrica medicamentos para tratamento de contusões, batidas e outros ferimentos. De certa forma, poderia estar ligado diretamente ao esporte, afinal de contas, tratamentos submetidos por estes atletas é algo bastante corriqueiro. No entanto, como os produtos da Salonpas são direcionados ao público em geral, não "merece" menção da Vênus Platinada.

Exemplos, poderia citar vários, mas os dois acima já servem para demonstrar como o chamado "departamento comercial" da RGT atua. Se a empresa não trabalha exclusivamente com carros e automobilismo, não é "exposta gratuitamente" por ela nas transmissões.

Pode também ser uma questão de "potencialidade": a Red Bull patrocina competições e esportes dos mais variados tipos, portanto, não se interessam em comprar espaço publicitário da Globo. Por isso ela não é mencionada pela RGT. Já as fabricantes de automóveis, como a Renault, que compra espaço da própria F1 da emissora, já é mencionada, por fazer parte do "pacote". Mas, e as outras, que não anunciam? Aí está: elas são um "cliente em potencial", e são mencionadas com o intuito de tentar vender espaço maior para elas.

Se não fosse assim, Ferrari, McLaren, Williams, Renault, Toyota e BMW teriam que ser "apelidadas".

Ah, mas aí você vai perguntar: e durante a "guerra dos pneus", porque a Globo chamava a Michelin de "fabricante francesa" e a Bridgestone de "fabricante japonesa"? Isso faz parte de um "lobby" das filiais brasileiras das duas marcas de pneus, que não querem ter associadas possíveis derrotas nas pistas da F1 com os resultados das vendas da segunda-feira. Isso se reflete também na Stock Car. Quem produz o chassi tubular e a mecânica dos carros é a Giaffone Motorsports, as marcas apenas colocam a "bolha". Nenhuma marca quer disputar contra a outra, mas, ao mesmo tempo, associa suas vitórias aos anúncios publicitários.

É justamente pelo contrário que campeonatos de turismo são um tremendo sucesso. Por exemplo, na Alemanha, com a Deutsche Tourenwagen Masters, e na Austrália, com a V8 Supercars, onde os carros são padronizados, claro, mas quem constroi os carros são as marcas que participam, e, assim como no caso do difusor, em 2009, tem que achar uma "carta na manga" para criar um carro mais rápido que os dos adversários, criando, assim, uma competição saudável.

Assim, a Globo é, ao mesmo tempo, responsável e vítima da situação. Assim como qualquer emissora de TV aberta, vive exclusivamente de anúncios pagos. Um anúncio de trinta segundos no começo do "Fantástico" custa o equivalente a um milhão de reais. Ou vocês acham que é barato comprar um espaço no satélite, para que qualquer pessoa aponte uma antena parabólica para receber o sinal?

Depois de tudo isso, eu não me admiro com isso. Fico mais apavorado com o fato que aconteceu no programa "Auto Esporte" de 21/02: falaram, numa retrospectiva da carreira de Michael Schumacher na F1, que Kimi Raikkonen foi o campeão da temporada 2005. Pelo jeito, o "departamento esportivo" da Globo está mais perdido que o seu "departamento comercial".

Agora eu penso: será que já não era tempo da Record tentar novamente comprar os direitos de transmissão da F1 da Globo? Na primeira tentativa, Bernie não quis, por conta da visibilidade do mercado brasileiro. Mas agora é diferente: com os direitos de transmissão dos Winter Olympic Games de Vancouver assegurados, e TRANSMITIDOS, pela Record, além da exclusividade na TV aberta dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, as chances de conseguir a F1 são maiores.

Keep in mind, FOM!

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